Outeiro de Gatos é uma aldeia da Beira Alta que pertence ao concelho da Mêda, distrito da Guarda.Este é um blog que pretende dar a conhecer esta aldeia e o seu concelho, divulgar as suas riquezas patrimoniais e paisagísticas mas também as suas manifestações populares e culturais, as festas e romarias, as feiras e exposições, os monumentos, as antigas Vilas Medievais, o artesanato e as suas gentes, seus costumes e tradições. Fique por aí e volte sempre. Obrigada.

Passear por terras medenses (V)

E eis que chegamos ao último percurso turístico da Mêda! Vamos hoje "A caminho das terras da Ordem de Cristo".


Tome a direcção de Longroiva. Pelo caminho, deixe-se envolver pelas belas paisagens da Veiga. Para além do castelo, Longroiva possui um notável património cultural construído: o solar dos Marqueses de Roriz, a Capela da Senhora do Torrão, exvotos, a Fonte da Concelha, a Fonte Nova, a Igreja Matriz, a estrada romana, a forca, várias sepulturas antropomórficas e moinhos de água.

De resto, as Termas de Longroiva são a grande riqueza do concelho. Águas sulfúreas de caudal abundante com a temperatura de 44 graus centígrados, cuja qualidade e autenticidade foi técnica e cientificamente testada. Aproveite para passar alguns dias na Estância Termal e beneficie das qualidades das suas águas, particularmente benéficas para a cura de enfermidades relacionadas com a pele e os ossos.








Do vasto e rico património de Longroiva, merece ainda referência a Igreja Matriz de Santa Maria, nas imediações do castelo. A seu lado, a capela de Nossa Senhora do Torrão, rodeada de sepulturas antropomórficas datadas do século XII. Atente nas talhas douradas do retábulo do altar, nas pinturas do tecto e nos frescos datados do século XVIII. No largo da Praça, localiza-se a antiga Câmara e o Pelourinho.

Regresse à Mêda e reserve a tarde para se deslocar à freguesia de Fonte Longa, um percurso inesquecível a fazer no tempo das amendoeiras em flor.

Visita obrigatória à Igreja Matriz, dedicada a Santa Maria Madalena e as capelas da Senhora de Belém e São Sebastião.

Terminados agora os cinco percursos turísticos pelo concelho da Mêda, não se vá embora... teremos ainda muitas outras sugestões interessantes, aqui no blog de Outeiro de Gatos.

Aproveito e desejo-lhe um bom fim de semana.

Nota: A fotografia das Termas de Longroiva apresentada neste post é do antigo edifício. Em breve, teremos aqui um post sobre as termas com fotografias das novas instalações, inauguradas o ano passado.

Passear por terras medenses (IV)

O percurso turístico de hoje leva-nos "do Poço do Canto às Romarias de Santo Amaro da Senhora do Monte de Ranhados".


Parta da Mêda pela estrada nacional 324 até ao alto do Poço do Canto. Ao cruzeiro dos centenários, desça para o centro de Poço do Canto para uma visita à Igreja Matriz, edifício rocócó de finais do século XVIII e consagrado ao Divino Espírito Santo. Do Adro poderá contemplar algumas casas solarengas: a casa de Cônsul e a Casa de D. Alda, de algum interesse arquitectónico.


Regresse ao alto do Poço do Canto para retomar a viagem em direcção a Ranhados, pelo caminho municipal de Santo Amaro.
Em Cancelos do Meio faça uma paragem para contemplar mais um belo solar barroco do século XVIII. Neste solar alojou-se, a convite do então proprietário Caetano de Seixas, Alexandre Herculano, em 1852. A arquitectura da fachada apresenta uma singular harmonia.

Continue, depois, a descer até à Teja, até encontrar a capela de Santo Amaro. Suba até Ranhados, freguesia de património artístico notável, constituído essencialmente pela Igreja Matriz, pelourinho, fontenova, castelo, solar dos Távoras, solar dos Condes de Avillez, antigo Tribunal e Cadeia, castro de S. Jurje, Cruzeiros e casas tradicionais. De todo este património, ressalta pelo seu valor arquitectónico a Igreja Matriz.

Passear por terras medenses (III)

Vem aí a Primavera e nada mais especial que desfrutar esta época pelas terras da Mêda e apreciar o esplendor dos vales cobertos de amêndoeiras em flôr!

A proposta de hoje é para passear por "Terras de Coutinhos, Marialvas, Sampaios e Melo.

Parta da Mêda em direcção a Marialva pelo lado nascente. Marialva é uma vila antiquíssima, constituída por três aglomerados populacionais: a cidadela entre muros, que ainda no princípio do século XX era habitada e que hoje se encontra em ruínas; a vila, com características quinhentistas e a Devesa, que se estende para a planície, onde corre a ribeira de Marialva.



As muralhas do
castelo, de contornos irregulares, tomam a forma de um barco que parece navegar para Sudoeste, delimitam um espaço organizado segundo o traçado de três ruas provenientes das três portas das muralhas eque confluem para o largo central, onde se situam as ruínas do Paço do Alcaide, da Casa da Câmara, Cadeia, Cisterna e Pelourinho.

Na zona mais elevada do interior das muralhas, poderá contemplar a Torre de Menagem, a Igreja Matriz de Santiago e a Capela do Senhor dos Passos. Numa das muralhas do Castelo de Marialva descubra um campanário românico da Igreja dos Templários. A encimar o campanário, ergue-se a cruz dos Templários. Na vila, poderá ainda visitar a igreja de S. Pedro, do século XVII e com magníficos altares barrocos em talha dourada e pinturas murais. Através do Projecto de Recuperação das Aldeias Históricas,as casas da vila foram recuperadas. O principal núcleo populacional de Marialva encontra-se na Devesa, onde surgiram vestígios da época romana como colunas, capitéis, inscrições, cerâmica e moedas.

Deixe Marialva para ir dar uma volta pela Barreira, onde poderá conhecer a Igreja Matriz, a Capela de Nossa Senhora dos Milagres e a Capela de S. Sebastião. Outros pontos de interesse são a fonte de mergulho, no Lameirão, os moinhos de água da ribeira de Marialva, o forno comunitário e a Casa da Cerca.

Parta, depois, em direcção à Coriscada. Dois solares merecem destaque: a casa dos Menezes – também chamada de "Casa da Chaminé" - e o Solar da Casa Grande, dos Viscondes da Coriscada. Suba ao monte de Santa Bárbara, sobranceiro à aldeia e encimado por uma ermida dedicada àquela santa. Desfrute de uma paisagem de beleza agreste, que se estende da Serra da Marofa aos montes de além Douro e do Castelo de Marialva à cidade da Guarda. Os campos de vinhedos, oliveiras e pinheiros e o rio Massueime poderão proporcionar-lhe agradáveis retiros de silêncio.

Retome a EN 324 e a EN 102 e vá em direcção ao Rabaçal, onde sobressai a Igreja Matriz, um belo templo de construção rococó, dois solares da família Sampaio e Melo (o solar da quinta de Bacelada e o solar do Morgado) e a fonte barroca.

Seguindo novamente pela EN 102, mas em direcção à Mêda, faça uma curta paragem no Carvalhal. Situada num vale verdejante, hoje é uma terra pequena, mas de grandes tradições. Na Igreja Matriz, datada do século XVIII, não deixe de admirar o tecto em caixotões da Capela-mor.

Volte à estrada para visitar Valflor, onde há paragem obrigatória na Igreja Matriz, nas ermidas de Santo António, Santa Bárbara e Nossa Senhora da Saúde – uma jóia do rococó, edificada em 1818.


Passear por terras medenses (II)

Depois de conhecer a Mêda Urbana, faça agora o roteiro pela Mêda Rural, visitando Outeiro de Gatos, Aveloso, Prova, Casteição e Paipenela.

Junto da Igreja Matriz de invocação de Nossa Senhora da Graça, em Outeiro de Gatos, existem alguns elementos arquitectónicos de um antigo convento, em que, desde logo, sobressai um portal do século X V II. É imprescindível que aprecie as belas casas em cantaria, das quais se destaca a Casa Grande do Século XVIII. Deixe a aldeia e atrevesse a Teja, através de uma ponte romana, ainda muito bem conservada e suba pela povoação de Aveloso, berço de muitas histórias. Aqui nasceu Albano de Jesus Beirão, apelidado de "homem-macaco" - homem invulgar, nascido em 1882. É ainda obrigatória uma visita à Igreja Matriz de invocação à Senhora do Pranto, com reminiscências românicas. Destaque, por outro lado, para o extraordinário quadro paisagístico proporcionado pelo miradouro.


Andando mais três quilómetros para montante da Teja, divise num vale largo, no sopé do Pendão, a freguesia da Prova. Pare na Fraga da Pendão, de onde se avistam as aldeias circunvizinhas, num cenário deslumbrante. Na Prova, visite a igreja paroquial. Na zona mais antiga da aldeia, pode contemplar casas de interesse turístico: a Casa Grande do século XVIII, na qual esteve instalado Salazar em Agosto de 1937, em visita à família Lacerda, e a casa de S. José Cardoso, edifício do século XIX.


Retome a estrada para Sudeste, em direcção a Casteição, passando pelos Chãos. Neste lugar, propomos uma visita à casa do Senhor Raúl que, embora esteja em avançado estado de degradação, constitui um óptimo exemplar da Casa Beirã. A freguesia de Casteição é particularmente famosa pelos seus castanheiros, que constituem verdadeiros monumentos vivos. Os vários soutos seculares que rodeiam a aldeia transformam a freguesia num espaço "sui generis" de grandiosidade e beleza natural. Recomenda-se uma passagem pela Igreja Paroquial, exemplar de arquitectura religiosa barroca da época joanina. No adro da igreja, erguem-se o Pelourinho e a antiga Casa do Concelho.

No regresso à Mêda, faça uma pausa em Paipenela, freguesia com uma paisagem envolvente extraordinária (facto que poderá, de resto, confirmar no miradouro da aldeia). Trata-se de um lugar místico, onde prolifera a arquitectura das crenças e dos cultos, com destaque para os nichos e as alminhas.


Fotos deste post: Igreja Matriz de Outeiro de Gatos; Casa Grande da Prova e Torre Sineira de Casteição.

Passear por terras medenses (I)

Nos próximos posts irão encontrar algumas sugestões para a próxima visita ao concelho da Mêda.
Serão lugares, monumentos mas também actividades e eventos que poderão visitar e ficar a conhecer. As primeiras sugestões estão relacionadas com os cinco percursos turísticos da Mêda. São eles:

  • Roteiro I – Mêda Urbana
  • Roteiro II – Mêda Rural
  • Roteiro III – Por terras de Coutinhos, Marialvas e Sampaios e Melo
  • Roteiro IV - Do Poço do Canto às Romarias de Santo Amaro da Senhora do Monte de Ranhados
  • Roteiro V - A caminho das terras da Ordem de Cristo

Começemos, então, pela Mêda Urbana:



Na Mêda, poderá iniciar a visita nos Paços do Concelho.
É um antigo solar barroco do século XVIII, embelezado com azulejo representando motivos das 16 freguesias. Depois, dirija-se à Rua da Corredoura, onde e
ncontrará um outro solar barroco, do mesmo século - o Solar das Casas Novas -, onde estiveram aquarteladas as tropas anglo-lusas durante as invasões francesas.


A pouca distância do local, duas fontes: a do Espírito Santo, manuelina, e a fonte barroca das Fontaínhas. À saída da Rua da Corredoura e depois de atravessar a Rua Direita, encontra o Centro Histórico da Mêda, que inclui a Igreja Matriz, o antigo Tribunal, a Cadeia, o Pelourinho e o Museu Municipal.

Seguindo pela Rua Professor Ilídio Gouveia, encontrará depois a Rua da Poça, onde terá residido o Comendador da Ordem de Cristo. No local, existe uma janela manuelina de grande interesse. Na Rua Nova está situada a casa do Dr. Alondo e D. Amélia, um belo edifício Arte Nova. Depois, é imprescindível uma visita à Torre do Relógio, local de onde poderá contemplar a vila. Siga pela Rua Dr. Roboredo, onde encontrará o novo Palácio de Justiça. Virando à esquerda, estará novamente na Avenida. A poucos metros, encontrará o Parque Municipal, local que guarda a belíssima fonte barroca da Devesa.


Contornando o campo de futebol, encontre um testemunho da modernidade da vila beirã. Faça uma visita ao Complexo Desportivo das Piscinas, dotado de todas as infraestruturas imprescindíveis para a prática do desporto. Daqui, parta para a Zona do Barrocal, para conhecer a Casa da Cultura e nova Biblioteca Municipal. Regressando ao centro da vila, o solar da família Lacerda Faria merece uma visita demorada. A jornada termina na Capela da Senhora das Tábuas, pequeno templo fundado pelos Templários, e, já fora da vila, na Ermida de Santa Cruz. Depois de jantar – realce para os deliciosos manjares típicos da região – poderá investir num passeio nocturno pela Avenida da Mêda.

Vinhos da Mêda

Com o encerramento da Adega Cooperativa da Mêda em 2009, vinhos como "Angoreta”, “Caves de Meda”, “Fraga Ruiva” “Medalta”, “Morro do Castelo”, “Adega de Mêda” e “Turcularium” fazem agora parte da memória de quem os apreciava.

Mas quem quiser saborear outros vinhos de terras medenses, verdadeiramente genuínos, pode fazê-lo. Existem alguns vencedores de prémios e muito procurados no mercado. Convido-vos a uma "tour" pelo concelho. Começemos por Poço do Canto.

A história de um vinho começa na vinha. Com uma área de 15ha, as vinhas do Poço do Canto, plantadas no solo xistoso característico da região, têm uma exposição solar excelente, nomeadamente a Sul, a uma altitude de 600m. A vinha é composta por diferentes castas que dão origem aos vinhos produzidos por Lucinda Todo Bom. Com destaque para a Touriga Nacional, podemos encontrar também Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca.
Para já a Vinilourenço apresenta-se no mercado com as referências D. Graça Tinto Escolha Virgílio Loureiro, D. Graça Tinto Vinhas Antigas, D. Graça Branco Viosinho, D. Graça Tinto Reserva, e D. Graça Branco Reserva.
De estilo europeu, os néctares da Vinilourenço são provenientes de vinhas a uma altitude de 700 metros, numa zona montanhosa de transição entre o planalto beirão (Dão) e o Alto Douro (Encostas da Ribeira Teja e na Quinta do Grilo). É uma empresa com cinco anos, projecto do mais jovem vitinivicultor da família, Jorge Lourenço, que movido pela enorme paixão e conhecimentos vitivinícolas, rentabilizou as infra-estruturas familiares, modernizando-as, alargando-as e dando-lhes expressão além fronteiras.
O vinho Gravato tem o nome de uma batalha na qual as tropas anglo-portuguesas saíram vitoriosas, tendo como adversários os franceses que se viram forçados a sair de Portugal. Foi a batalha do Gravato que teve lugar a 3 de Abril de 1811.

A Quinta dos Barreiros, na Coriscada, está situada numa zona de xistos e grauvaques, acima dos 500 metris de altitude.

O Gravato Palhete é vinificado na adega da Quinta dos Barreiros, a partir de uma mistura de uvas brancas (Rabisgato) e de uvas tintas (Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca e Rufete).

Instaladas em locais protegidos da região de entre Mêda e Côa, as pequenas vinhas da Quinta das Vermelhas no Rabaçal, mal permitem a mecanização. Mas retribuem generosamente os cuidados, produzindo um precioso néctar moldado pelos intensos frios invernais e refinado pela secura típica da região.
Entre os vinhos da Quinta, destacam-se o "Touriga Nacional" e "Trincadeira Preta" vinhos tintos de 2003. "Allegro" e "Chardonnay e Fernão Pires" são vinhos de 2005 e 2006, respectivamente, provenientes da agricultura biológica produzida na quinta.

Para quem quiser conhecer com mais detalhe os vinhos referidos, basta clicar sobre os logos das quintas.

Aconselho ainda uma visita à loja "gourmet" Vinhos & Eventos situada no coração da cidade da Mêda onde poderá encontrar todos os vinhos da região e muito mais...



"Garrafas em guarda, perfiladas como um batalhão de elite. Prontas a ser abertas, em momentos de alegria, perfumando o ambiente e levantando os corações dos convivas. Quantidade sim e qualidade também, para o agrado certo da clientela."

Vinho da Mêda - A Lenda

Como poderia eu falar dos sabores da terra, esses manjares dos deuses, sem lembrar o bom vinho que destas terras enche os nossos copos, também ele repleto de aroma e sabor que dificilmente se esquece?

Muito afamado em tempos, "hoje em dia poucos são os que se lembram do Vinho da Mêda também conhecido como Palhete da Mêda ou Palheto da Mêda, mas os que se lembram recordam com saudade o tão afamado vinho e anseiam por uma oportunidade para partir numa viagem em senda dos sabores do passado".

O post de hoje convida-vos a uma viagem por terras de Mêda à descoberta dos magníficos vinhos da região, que vêm conquistando o seu lugar no mundo.

Mas antes, fiquemos a conhecer a lenda do vinho da Mêda.

Em tempos remotos Baco fez uma visita ao seu bom amigo Endovélico, o deus dos deuses da Lusitana. Aconteceu, por isso, a generosa divindade do vinho ter de passar, certo dia cálido de Agosto, pelas acidentadas terras medenses. Atravessou a Veiga de Longroiva e subiu penosamente o Barrocal tornando por ladeiras íngremes o caminho da Mêda. Ia esfalfado o pobre deus Baco. Levava os pés doridos das agudas pontas das rochas, a toga rota pelos silvados dos caminhos e o suor caía-lhe em grossas bagas pela fronte avermelhada. As cigarras cantavam uma canção monótona, cheias de sono. Hélias, lá no alto, lançava inclemente os seus raios sobre a terra.

Quando ia, pouco mais ou menos, onde hoje está o Alto do Poço do Canto, rebentou-lhe uma sandália. E ainda bem, porque se não fosse assim ia jurar que rebentava de calor. Perto daquele local, à entrada de uma tosca cabana de pedra e troncos, havia um casal de lusitanos e um filhito.
Baco, ao vê-los, correu para eles gritando:
- Pelos deuses, dai-me de beber!
O lusitano entrou na cabana e regressou com uma escudela de barro cosida ao Sol, cheia de água.
- Pegai!
Baco fez uma careta muito feia.
- Água? Acaso não tendes vinho?
O anfitrião arregalou muitos os olhos, cofiou a barba entouça e volveu espantado:
- Não. Nós não sabemos o que isso é. Quereis vós comer?
E sem esperar resposta voltou com uma perna de cabrito montês. O deus do vinho agradeceu. Se ainda fosse regado com o seu tinto... Assim não. Fazia-lhe mal ao fígado. Por fim resolveu beber a água com certa repugnância.
À despedida, Baco, comovido pela franca hospitalidade do luso, disse-lhe:
- Ainda um dia hás-de saber o que é vinho,

Alguns anos mais tarde uma centúria romana, marchando em cadência, parava à porta da singela habitação do lusitano. Este, retesando o arco, esperava-os agressivo. O filho, que era já um rapazinho, empunhava, ao lado da mãe, o gládio.
Os legionários deixaram a forma e cada um deles abriu uma vala e na vala pôs uma videira. Depois tomaram os lugares e partiram como haviam vindo, em marcha cadenciada e rítmica. Num dos bacelos lia-se esta tabuleta: "Baco oferece, reconhecido."

Aquelas cepas deram a seu tempo saborosos bagos cujo suco o lusitano espremeu para beber no inverno, numa comunhão de força e de rejuvenescimento. E assim, daquelas belas uvas da Campânia, que eram a delícia do bom Baco, havia nascido o generoso e salutar Vinho da Mêda!

Fonte: "Terras da Meda" de Adriano Vasco Rodrigues

Sabores da terra

"Sobre a arca atoalhada do mais puro linho apresenta-se o folar, rimas de queijos e de bolos, pratos de ovos, ou moedas entaladas em laranjas, à falta destas, em peros."

Aquilino Ribeiro

Quando pela primeira vez uma terra visitamos, queremos conhecer os lugares, as suas gentes e tradições. Mas logo uma ideia nos vem à cabeça e depressa perguntamos: "O que de bom se come nesta terra? Que segredos se escondem nas cozinhas e nas mãos de quem nelas trabalham? O que podemos encontrar numa mesa farta?"

Sentar-se a uma mesa beirã é convite mas também desafio para apreciar, da panela fumegante, o mais genuíno da cultura gastronómica destas terras.
A cozinha da Beira Alta é repleta de aromas, rica em sabores, substancial e variada. Tanto Domingos Rodrigues como Camilo Castelo Branco, conheciam o esplendor da região beirã e dela fizeram curiosos testemunhos gastronómicos nas suas obras literárias.

Desta região sempre foram abundantes e de qualidade, os porcos, os leitões, a vitela, o carneiro, o cabrito, o coelho e toda a caça que se expande por vales e montes mas também as aves de capoeira como a galinha preta, a pedrês, o pato, o peru e o frangão que os médicos de antigamente sempre recomendaram em circunstâncias mais delicadas.

A oferta é variada e espantosamente saborosa, desde o cabrito assado, a feijoada com enchidos e hortaliças, o tradicional bucho da Beira Alta, as filhoses, o arroz doce e outras delícias dos deuses.

Não faltam ainda os queijos, os vinhos, os licores, chás e outras bebidas de paladar doce e amargo satisfazendo todos os gostos.


Os doces e as compotas são uma verdadeira tentação. Sejam de abóbora, castanha ou cereja, oferecem aromas e paladares abençoados, de histórias de outros tempos.

As técnicas artesanais da feitura do pão, enchidos e queijos, alegram os olhos curiosos daqueles que procuram a genuinidade, que resignados se sentam à mesa para apreciar a arte de bem comer!
Conheça os restaurantes da Mêda, clicando na imagem a seguir e bom apetite...


Ribeira Teja

Quando passeamos por estas terras, subimos os montes, descemos as escarpas, observamos o azul dos céus e respiramos profundamente, enchendo os pulmões de um ár puro e limpo e o coração de um sentimento de verdadeiro êxtase.

Por entre estas paisagens imaculadas, ouvimos de repente o som cristalino da água que corre. E, curiosos, procuramos por entre as árvores, saltamos as pedras, descemos caminhos... e, então, avistamos por entre o arvoredo, quase escondida, aquela que se chama Teja, a ribeira que nasce a norte de Trancoso e que atravessa todo o concelho da Meda.


Após um percurso de cerca de 45 quilómetros, desagua na margem esquerda do rio Douro, já em terras do concelho de Vila Nova de Foz Côa.

E os olhos abrem-se de espanto... mas que deleite, que prazer suave e demorado aquele que sentimos...

Devagarinho e a medo passamos sobre a pequena e rústica ponte de madeira que alí se esconde. Caminhamos depois, já na outra margem, seguindo com os olhos as águas que correm. A brisa quente que agita suavamente as folhas das árvores, convida-nos a entrar descalços naquela água fresca. Que delícia...

Seguimos depois viagem, com uma vontade renovada para descobrir novos segredos da ribeira.

E eis que surgem, quando menos contamos...


E o coração quase que pára perante a visão. Tenta-se captar aquela imagem com a máquina para não mais se esquecer... como se fosse possível. Como se alguém conseguisse apagar tal quadro da memória.

Seguimos viagem já de regresso a casa. Mas o nosso coração ficou para trás. Resta-nos apenas as fotografias que agora surgem no computador, surpreendendo-me com tanta beleza.


As cores da nossa terra

Gostava de pintar esta terra de paisagens encaixadas entre o granito e o xisto, de magníficos horizontes, vestidos de branco das amendoeiras em flôr e das diferentes tonalidades das vinhas.

Gostava de saber pintar. E quando me perco com o olhar por estes vales de todas as cores, vêem-me à memória as palavras de José Saramago na sua "Viagem a Portugal":

"Vai o viajante continuar para norte, pela estrada a nascente da ribeira de Teja, nome que espanta encontrar aqui, pois estas não são as terras que o Tejo banha e onde Teja deveria estar, como mulher de seu marido. Passa em Paipenela, e dando a volta por Meda e Longroiva, apanha a estrada que vem de Vila Nova de Foz Côa e torna para sul. O caminho agora é de planície, ou, com rigor maior, de planalto, os olhos podem alongar-se à vontade, e mais se alongarão lá em cima, de Marialva, a velha, que esta fundeira não tem motivos de luzimento que excedam os legítimos de qualquer terra habitada e de trabalho. O viajante não se confunde com o turista de leva-e-trás, mas nesta sua viagem não lhe cabe tempo para mais indagações que as da arte e da história, ciente de que, se souber encontrar as pontes e tornar claras as palavras, ficará entendido que é sempre de homens que fala, os que ontem levantaram, em novas, pedras que hoje são velhas, os que hoje repetem os gostos da construção e aprendem a construir gestos novos».